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Pão e circo


Metrópole Humana Incendiária

 

Não dava. Eram grandes as grades invisíveis que cerraram meus impulsos. Não sei conviver com isso. Não disse uma palavra, apenas deixei o cigarro aceso na mesa de cabeceira, poucos livros e minhas mãos ainda inquietas sem desejo. Dali nada mais delineava meus dias. Nem as velas, nem os riscos, tampouco o futuro imaginário cheio de filhos e uma solidão.
Voei. Arranquei as fibras dos meus antebraços já endurecidos de muitos anos sem ser pássaro e implantei ali séculos de loucura. Não sabia mais existir.

Nas costas, nenhuma roupa, nenhum vinho seco e meus pés, ágeis. O asfalto aproximava os olhos da realidade. Nua. Crua e cheia de sangue, minha carne já gelada de melancolia não enxergava um palmo ao lado. Ela que é atravessada de esperança, hoje se esfacelou de vazio. E não é pouco. Um vazio molhado de silêncio, talvez um copo ou uma coleção de gotas pequenas.

Entrei no primeiro banheiro do bar daquela rua escura e no espelho partido pontiagudo me pintei. Recriei os pequenos lábios pálidos e acendi um pedaço de vela nos meus olhos já cansados de sinais fechados. Parti.
Começou a chover. As ruas já molhadas pelo líquido ensandecido encharcavam meus passos, já lentos pelo motor alvoroçado da chuva. Sem rumo. Continuei desnivelando a tinta das divisões das ruas enquanto um fogo quase morno se agitava em mim devorando o estômago. Segui.

Subi escadas, retirei homens quase bêbados e cheios de idéia da frente, revirei os detalhes das casas abandonadas e não me encontrei em nada. Precisava de um lugar seguro. O mais seguro possível. Até que um céu arranhado por uma antena de televisão enferrujada me fez enxergar um mundo. Subi.

A cada degrau, gramas de medo eram jogadas escada abaixo, rolando como quem traduz outra pessoa. Cheguei ao último andar de mim, leve. Abri a porta da caixa de máquinas de elevadores e consegui encontrar um pedaço de céu. Era ali a vista mais humana da cidade. Longe de tudo, mais perto do desconhecido que não apavora, encoraja.

Encontrei um cantinho. Limpei os sacos plásticos, as piúbas, os laços de fita amareladas e um pouco de tristeza. Meu novo lar. Já conseguia sentir o cheiro do café da vida escorrendo devagar pelas tardes enquanto as crianças gritavam lá embaixo... Inquietas. Era como eu. Tudo ia dormir, mas por dentro a febre estremecia os nervos, os olhos e até os fios de cabelo embaraçados como as linhas das minhas mãos. Sem mapa nenhum.

No bolso, uma agulha, um batom e um pedaço de vela para durar nas noites frias sentiam o desejo de serem utilizados a todo instante, mas não. Não eram necessários agora. O importante nesse pedaço de mundo é ouvir o ruído de tudo o que habita a cidade.

Foi assim quando descobri que o som da chuva e do fogo são quase idênticos. E isso muda a música da vida. Descobri um pouco mais que isso... Mas não saberia explicar agora. Era preciso fiar o ninho, linha por linha dessas pipas que sobrevoam meu juízo. E fiz. Passei a construir com esse material bruto, o pedaço perdido da existência. Recriei o berço e fiz também um travesseiro com as linhas. Era para deitar a cabeça a ser preenchida pelas novidades que viriam. E não eram poucas.

Chegou a hora de usar a agulha. Estava quebrada. Mas esfregando o resto dela no vinil velho jogado no canto esquerdo da casa, talvez saísse um som. E saiu. Lembrava passarinhos, mas não era. Era um ruído quase colorido

Existem noites que são assim, grandes metrópoles estremecidas que desmoronam todos os sentidos, sonhos e um infinito cravado na memória e nos passos interrompidos. Não há como fugir de tudo isso agora. É o ar que habita a cidade, minha idade e o futuro cuidado num copo de água de chuva.



Escrito por Michelle Ferret às 12h19
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Me Alugo para Sonhar

 

Não, não é uma ideia minha

nem de alguém visto pela janela

era dele

de Gabriel

o Garcia

que colocou María de La Luz Cervantes

para bailar na minha vida

e ela veio

entrou como quem nuvem

desgarrada, enfurecida e trazendo sol

meio fosco

mas era

e não tarde

era ela

e as outras Marias

dentro de mim

me mostraram o que restou de Auschwitz

dos incêndios

das sobras

de dentro

me mostraram um outro mundo

esse aqui que habito agora.

 

me alugo.



Escrito por Michelle Ferret às 19h51
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Escuto Borges

quieto como café que escorre

seu verso queima

corrói por dentro

desfaz a sonoridade da vida

pinga como chuva

quase ácida

menos líquida

e fria

boa de sentir na pele

por dentro

escorrendo em palavras

um cotidiano que não se descreve

 

 

 



Escrito por Michelle Ferret às 12h56
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Boca sem tinta

Cor de azulejo

céu de trovões

aceso

 

fogão a lenha

boca de fogo

leite quente

escorrendo pelas nuvens

por dentro

faz rios

percursos estreitos como as mãos

cheias de linhas

formam mapas inteiros em mim

 

 

 

 



Escrito por Michelle Ferret às 01h02
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Romã

Maçã

Boca Vermelha

framboesa

Morango

Manhã

 

manha

Mãe

Vira

Vida

Volta

Vai

mais uma flor ..

no chão

no asfalto

Boca Vermelha

E mais ...



Escrito por Michelle Ferret às 00h50
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O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra

 

Destruição e desenho

páginas meladas de açúcar e tragédia

derretem janelas

entranhas vivas

derretem o amor,

a crueldade

e desfarela-se em gente

pó de alguém

 

Para a luz que acende na capa do livro de Tim Burton

 

 



Escrito por Michelle Ferret às 10h03
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Amanhece
e o clarão invade a cidade,
os vazios,
a velocidade
deixando tudo mais humano
menos só

mesmo os pés
que já cansados
tocam o asfalto
que vira terra fértil
e faz flor

até eles já correm
e reviram os viadutos
fazem os trens voarem
e os aviões vão mudando de cor
soltam as asas em mim
recortam um pedaço de céu
e colam nas paredes da gente

tudo querendo escorrer com a chuva
molhando até os sentidos
os destinos
os desejos
molhando de tanto querer

 



Escrito por Michelle Ferret às 22h19
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Iluminuras

pequenos pedaços de céu dentro de uma telha

estrada do gato

Ele solitário

traça seus dias entre o céu e a casa

se assanha pro vento e pra lua

todo molhado de nada

 

 



Escrito por Michelle Ferret às 16h16
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Chave, vidros, ar condicionado

portas sujas por pés

peles idem

esticadas feito alfaia

tocadas

dissonantes

som de fazer o ouvido doer

agudo

uivo de cachorro magro

uivo de ninguém

portas de novo estremecidas

entre abertas

alvejadas,

como eu.

 

Foto

 

 



Escrito por Michelle Ferret às 15h56
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A cidade inteira sob os pés

e você por ali

andando entre o mar e as luzes pequenas

quase líquidas

atravessadas de chuva

cortadas como navalha pela asa do avião

 

...

 

 



Escrito por Michelle Ferret às 00h26
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Os dedos das nuvens alcançaram o mar

ficaram molhados

e depois

carregaram o sal do mundo nas mãos.

 

...

 

 

Estendido

o roupão

a calça

o medo

tudo na linha

como um trem

sem trilhos

esperando passar.

 

...

 

No varal

as roupas sacodem

guardam o suor

lágrima do corpo

lavado por mãos

ou máquinas

torcem as lãs

os laços,

os nós.



Escrito por Michelle Ferret às 09h48
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Desde os olhos miúdos
miravam você
inteiro como quintal
de vó
de mundos
de si
desde você
o mundo é um só
e me gira
nina
azuleja
me passeia
como os séculos do sol



Escrito por Michelle Ferret às 10h21
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O fogo, a febre o frio

tudo cabe aqui

nesse pedaço de mundo

habitado por tudo

são vãos, vãs, terrenos baldios, vadios,

serenos dias quentes

termômetros quebrados nas noites

nos dias

nas horas mais sagradas

nos sabores

no céu dos olhos

 

nas linhas verdes trançadas pelos vestidos

"nós somos apenas vozes"

doces bárbaros

com os cabelos voando nos cantos da vida

no cais

nos sentidos todos

mesmo que invisíveis

 



Escrito por Michelle Ferret às 07h13
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Escrito por Michelle Ferret às 09h14
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Vulcão

espaço quente por dentro

navios de guerra

sonhos explosivos

jasmins

quedas d´gua

cheiro de mar

revolto debaixo da pele

...

sou eu



Escrito por Michelle Ferret às 09h13
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